Anderson Almeida

Procura por Talentos, Sua Empresa Está Fazendo o Certo, Ou É Culpa Da Crise?

Vivemos em uma sociedade onde determinadas empresas se adaptam às circunstâncias, com resultados aos colaboradores que podem ser bons ou ruins, pois a “crise” proporciona algumas oportunidades.

E neste atual cenário de “crise”, me deparo com o modo que as empresas buscam “colaboradores”, e o que esperam deles? Experiência na função - mas querem recém formados; dois idiomas será um diferencial - mas somente utilizarão o português nativo; muita habilidade no Excel - mas somente na parte de gráficos animados, de preferência que no final da apresentação ele faça um “joinha”.

Caso o candidato tenha todas as características solicitadas, a derradeira questão, para se candidatar a vaga: “envie seu currículo para a empresa e destaque sua pretensão salarial”, desta forma deixando ao candidato a incumbência de falar quanto ele quer receber, ou melhor, quanto vale sua força de trabalho. Não levando em conta que o mercado está restritivo, com muita procura e pouca demanda, tratando a situação sem se preocupar com a dignidade do trabalhador.

Recentemente li em uma rede social destinada a relações profissionais, uma matéria onde se apresentava uma planilha de Excel, 100% segura, que realizava testes com os candidatos através de múltiplas questões, e os aprovava ou recusava instantaneamente, mediante seus acertos ou erros, assim tornando a entrevista mais “rápida”, transformando o trabalhador em um número, uma estatística. Pergunto: É possível isso?

Em tempos onde a reforma trabalhista tenta aprimorar as relações laborais, um dos tópicos da reforma diz respeito à terceirização em determinados setores da economia. Pelo caso exposto acima, chegamos ao extremo de ter o processo de seleção automatizado e terceirizado, onde o futuro colaborador será selecionado por um programa.

Não só isso, pois o programa em questão poderá ser alterado a qualquer momento, levando-se em consideração o interesse da empresa em outras funções, pois o mesmo possui várias questões que abordam diversas especificações de trabalho, tornando-o assim de fácil manuseio e totalmente impessoal.

Com este cenário, de um setor de Recursos “Humanos” automatizado, vejo um novo nicho de trabalho, ou seja, cursos que podem capacitar o futuro colaborador, para “passar”, na entrevista computadorizada, já imagino até o “slogan” “1001 respostas do teste de emprego, 101% de aprovação, não perca a oportunidade de sua vida!”

Em uma sociedade que prima pela evolução, termos novas técnicas de trabalho, que venham a contribuir com a melhoria da qualidade de vida do trabalhador são sempre bem vindas. Mas fico preocupado quando uma ferramenta de trabalho pode substituir a intuição e o preparo de um profissional especializado. Contratar um colaborador, somente se baseando em um questionário de acertos ou pontuação, me parece temerário, e contrário ao fundamento da empresa quanto da sua função social.

Neste cenário de informatização da seleção, caso o futuro colaborador sinta-se prejudicado ou “excluído” de alguma forma, poderia ele, socorrer-se do judiciário alegando perda de uma chance, ou até dependendo do caso, discriminação. Agora, se a ação iria prosperar no judiciário, não temos como saber, pois há a probabilidade dos 50% sim, e 50% não, porém, com os custos das duas opções certamente por conta da empresa.

Assim volto a dizer que, em nossos artigos sempre destacamos a importância de três atitudes que devem ser pautadas pela empresa, capacitação, prudência e respeito. Ressalto que as novas tecnologias podem e devem ser empregadas no sadio meio-ambiente de trabalho, mas que estas ferramentas, venham a agregar valor ao usuário desta ferramenta, não substituí-lo.

A contratação de um colaborador acarreta uma gama enorme de deveres, tanto da empresa quanto do empregado, e esta ação não deve ficar apenas na responsabilidade de uma ferramenta, mas no discernimento da pessoa que fará esta seleção.

Se a crise é o problema, não devemos com ela privar o colaborador de sua dignidade, mas sim enfrentar a crise com ações que valorizem o trabalho digno, pois como nos ensina Isaac Asimov “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los”

Você conhece uma situação como as descritas? Deixe seu comentário ou dúvida. Até a próxima!

Anderson Almeida é Consultor de empresas, Professor de Graduação e Pós Graduação na área do Direito do Trabalho.